Transfofa em Blog

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quinta-feira, outubro 13, 2011

Como é do conhecimento geral, ou devia ser, embora a revolta de Stonewall represente, numa determinada perspectiva, o início do movimento gay moderno, não foi iniciada por gays nem sequer merece ser considerada como o início. Como se sabe hoje em dia, a revolta foi iniciada por elementos da comunidade T (transexuais e transgéneros).

O que muita gente não sabe é que 3 anos antes dos acontecimentos de Junho de 1969 aconteceu uma revolta em San Francisco que ficou conhecida como os Compton’s Cafeteria Riots em que elementos da comunidade T se rebelaram contra a discriminação e repressão de que eram diariamente alvo.

E o que ainda muito menos gente sabe é que antes desta revolta de 1966, em Los Angeles, no longínquo ano de 1959, deu-se o primeiro destes incidentes mais graves no que ficou conhecido como Cooper Donuts Riot. E novamente quem se encontrava na linha da frente dos acontecimentos? Elementos da comunidade T.

Embora a fulcral participação de elementos da comunidade T no despoletar dos movimentos gay e nestas revoltas tenha sido encoberta e apagada dos anais da história, tanto que do Cooper Donuts Riot duvido que exista conhecimento dele, dos Compton’s Cafeteria Riots alguma informação vai surgindo e dos Stonewall Riots a participação T tenha sido quase apagada e substituída pela G, o conhecimento destes acontecimentos ilustram bem a importância que as pessoas T tiveram no surgimento dos modernos movimentos LGBT.

Nos idos tempos dos anos 50 e 60, a polícia de Los Angeles, à semelhança das polícias pelo mundo fora, tinha o hábito de “embirrar” com a população T. Faziam buscas em bares gay, traziam os frequentadores dos bares para as ruas, alinhavam-nos nas paredes e detiam toda e qualquer pessoa cuja expressão de género não coincidisse com o género assinalado no BI. Ocasionalmente isolavam algumas vítimas “sortudas” para lhes darem uma “atenção personalizada” que usualmente tinha a forma de insultos e agressões. As detenções eram uma prática comum. Chegava-se ao ponto de polícias frequentarem os bares gay, casas de banho e pontos de prostituição, vestidos de forma provocante e atractiva, meterem-se com um alvo e prenderem-no assim que o alvo tentava um beijo. Outra táctica bem difundida era aguardarem à paisana fora dos bares e pontos de engates, seguirem um casal na ida para casa e invadirem a casa para os apanharem no acto sexual.

Por más que fossem as coisas para a comunidade homossexual, na comunidade trans era pior. Com a existência de leis contra o travestismo, a polícia tinha sempre uma mirada especial para quando entrassem ou saíssem de bares gay -- uma desculpa usual para encerrarem os locais, sendo esta uma das razões para muitos bares gay rejeitarem e discriminarem a população T.

Imensa gente T não conseguia empregos decentes, o que acontece ainda nos nossos dias com as pessoas trans femininas, e muitas recorriam então à prostituição, dando o epíteto de prostitutas a toda uma comunidade. À semelhança do que acontece ainda hoje, muitos media confundiam a homossexualidade com o travestismo, cross dressers, drag queens e transgéneros originando que muita gente gay e lésbica se ressentisse da visibilidade trans ainda mais.

Numa noite de Maio de 1959, no Cooper’s Donuts, um café aberto toda a noite situado entre dois bares gay, o Harold’s e o Waldorf, e que era um muito popular poiso fora de horas para trans, queens, trabalhadoras sexuais e companheiros, algo aconteceu.

Nessa noite de Maio de 1959 a polícia apareceu para verificação de identidades e a detenção de algumas trans. De acordo com o(s) raro(s) relato(s) que consegui encontrar:

Dois polícias entraram no café nessa noite, ostensivamente verificando BIs, e arbitrariamente escolheram dois homens, duas trans e um jovem acabado de entrar e conduziram-nos para fora do estabelecimento. Conforme a polícia ia obrigando todos a entrarem para a parte traseira do carro, um dos homens objectou, dizendo que a viatura estava ilegalmente cheia. Conforme os polícias tentaram forçá-lo a entrar, os restantes aproveitaram para sair da viatura.

Então toda a gente saiu do café. estavam todos fartos com a perseguição policial e nesta noite decidiram dar troco, arremessando donuts, chávenas de café e lixo aos polícias. Os polícias, face a esta barragem de “doces” e porcelanas, enfiaram-se no carro e pediram ajuda.

Rapidamente a rua rebentava com desobediência civl. As pessoas saíam para a rua, dançando sobre carros, acendendo fogos e fazendo outros estragos. Entretanto chegaram os reforços policiais e muitos dos revoltados foram espancados e presos. A rua foi encerrada por um dia.




O motim de Cooper’s Donut é confundido muitas vezes com o de Compton’s Cafeteria. Circunstâncias sociais similares levaram aos dois motins, e tal como o Cooper’s, a Compton’s Cafeteria de San Francisco, situada no distrito Tenderloin era um popular poiso para as trans pela noite fora, e para outros renegados sexuais.

E ambos os motins envolveram chávenas de café.

Sobre o motim da Compton’s Cafeteria, já tinha descrito os acontecimentos neste post de 24 de Junho de 2008 (com uma gaffe na data): http://transfofa.blogspot.com/2008/06/junho-o-ms-das-marchas-pride-por.html, mas aqui fica um breve resumo:

Em Agosto de 1966, um empregado do café chamou a polícia porque a legadamente algumas pessoas trans estavam fora de controlo. Quando um polícia tentou prender uma mulher trans, ela atirou um café quente à sua cara. Em poucos momentos iniciou-se o motim. Pratos foram quebrados, mesas e cadeiras voaram pelos ares, os vidros do restaurante foram quebrados e um quiosque de jornais próximo foi queimado.

A população trans e restantes clientes tomaram o café de ponta e na noite seguinte os vidros do café foram novamente partidos. Diferentemente de Stonewall, o motim de Compton’s tinha vestígios de alguma tentativa de organização -- muitos clientes eram membros de grupos de militância LGBT como os Street Orphans e os Vanguard.

A reacção das autoridades foi muito diferente da de New York. Uma rede de serviços de suporte englobando as vertentes social, mental e médica foi estabelecida, seguindo-se em 1968 pela criação da National Transsexual Counseling Unit, supervisionada por um elemento da SFPD (San Francisco Police Department).

Este motim deu azo recentemente ao filme Screaming Queens: The Riot at Compton’s Cafeteria, dirigido por Victor Silverman e Susan Stryker, onde é relembrada (e contada) a história destes dois dias.

Presentemente, a luta pela igualdade LGBT faz-se às claras e usando os media e tecnologia informática, mas os primeiros soldados desta luta não eram nem políticos, celebridades ou mesmo os considerados cidadãos respeitáveis. Foram pessoas trans, trabalhadoras sexuais e companheiros -- os frutos podres, os excluídos tanto pela sociedade transfóbica/homofóbica, que os via como “freaks”, como pela maioria da comunidade gay, que os via como “maus exemplos”.

Hoje em dia, ainda muitas pessoas trans, transgéneros e queers têm de subsistir da prostituição por lhes serem negados direitos básicos e fundamentais como o direito a ter casa e trabalho. E ainda hoje em dia têm mui to a ensinar-nos sobre coragem, bravura, sobrevivência e a vontade de lutar pela sua (nossa) dignidade. Pela importância que tiveram e continuam a ter, merecem o reconhecimento, suporte e respeito, tanto da nossa (T) parte como da restante LGB.



Mas as lutas iniciais não se fizeram somente com motins caóticos com tijolos a partirem montras de cafés e saltos altos a atingirem polícias. Nos anos sessenta existiram acções mais “polidas” embora sempre de confronto e luta.

A acção mais antiga de que tenho conhecimento deu-se a 25 de Abril (curiosa a data) de 1965 no Dewey’s, um café aberto até tarde de Philadelphia muito popular entre a população trans, jovens gays, travestis e cross-dressers.

A gerência, baseada na alegação de que estes grupos de pessoas afastavam os clientes respeitáveis, deixou de atender os jovens que se apresentassem com roupa não-conforme.

No dia 25 de Abril, cerca de 150 jovens compareceram no café travestidos. Alguns (não muito numerosos) recusaram-se a sair depois de terem recusado atendimento e foram detidos por conduta desordeira.

Durante o mês seguinte, elementos da comunidade LGBT de Philadelphia tomaram como alvo o café. Em Maio, activistas protagonizaram outra acção similar -- mas desta vez quando a polícia chegou não houve detenções e a gerência do Dewey’s prometeu uma imediata cessação das discriminatórias recusas de serviço.

E a maioria dos livros que relatam o início da luta LGBT, ocultam geralmente a importante e decisiva presença T, mesmo nas descrições de Stonewall.